Filhos são coisas realmente imprevisíveis, quando você acha que tem o controle sobre eles, aí que ferro tudo. Tenho dois, Gabriela e Pedro, são ótimos filhos, mas quem sabe você ache o contrário, afinal, pai sempre acha que seus filhos são perfeitos ou pelo menos sempre quer que os outros pensem isso. Gabriela tem 14, Pedro 8, vivem na mesma casa, porém parecem estar em mundos completamente opostos. Minha filha esta passando por aquela fase a qual acha que é a dona da verdade, que pode tudo, que ninguém manda no seu nariz e essas coisas de aborrescente. Já meu filho não, esse saiu ao pai, corajoso, esperto, forte e, bem, desorganizado e porco, mas lhes garanto que isso, ele herdou da parte ruim da avó dele. Bem, agora que vocês leitores já sabem um pouco sobre eles, creio que posso começar a contar o que aconteceu.
Há duas semanas, Gabriela estava conversando com sua mãe e eu, com bom ouvido que tenho, escutei sem querer minha filha perguntar à mãe dela, se já estava na hora de transar. Aí me empipoquei todo, 14 anos e a MINHA filha querendo saber de transar? Entrei na cozinha com tudo, tirei minha espada da cintura e gritei: “Cuidarei da sua virgindade até o casamento doce princesa Gabriela”! Aí desci das nuvens, e fiquei só de butuca escutando. Minha esposa admitiu que já deveria ter tido esta conversa com ela, mas que preferiu esperar Gabriela se interessar mais sobre o assunto e perguntar por livre e espontânea vontade à sua mãe. Gabriela disse que tinha vergonha de falar disso, mas desde que todos da escola começaram a comentar que uma garota do primeiro ano tinha “dado” pra um cara do terceiro (levei alguns segundos para entender o sentido daquela peça de jogo no meio da frase) é que se perguntou se já estava na hora de fazer o mesmo. Para meu alívio, Su, minha esperta esposa e administradora da grande empresa do lar, falou a Gabi que ela só deveria pensar sobre realmente fazer sexo, mais tarde, quando ela se interessasse por alguém cujo sentimento fosse mútuo e adquirisse grande confiança do indivíduo. Mas Gabi continuou a indagar sobre o assunto, foi aí então que Pedro estragou meu esconderijo, perguntando em alto e bom tom O QUE ERA SEXO, sob minhas costas. Minha filha ficou extremamente envergonhada por saber que eu estava ali ouvindo a conversa das duas e correu para seu quarto fechando a porta com mísero esforço. Su, apenas fez cara de desgosto e mandou eu fazer algo de útil e levar Pedro para dentro. O peguei pela cintura como se fosse um saco de arroz e o levei até sua cama. Então, como sou homem de poucas palavras, apenas mandei ele brincar, mas, para meu profundo pesadelo, estava fechando a porta quando Pedro me perguntou novamente: “Pai, o que que é sexo”? Fechei os olhos, respirei fundo, me virei e caminhei até a beira de sua cama. Tentei mudar de assunto perguntando se aquele jogo que ele tinha pegado emprestado do Vitor era bom mesmo. Mas ele me olhou com uma cara de poucos amigos, e resolvi, como bom pai que sou, parar e ter uma conversa de pai para filho.
Comecei a dizer aquelas frasezinhas clichês de sempre, assim como todo pai faria, dizendo que ele era muito novo para tais assuntos, que um dia ele iria aprender isso mais afundo e coisa e tal. Porém Pedro é muito curioso, e essa é uma qualidade a qual eu desejei naquele momento que ele não tivesse herdado de mim. Maldita genética! Então, começou ele com seus “porquês” de sempre e lá fui eu, com toda minha grã experiência quarentônica achar um meio sutil de dizer a ele o que era O ATO SEXUAL.
“Pois bem, como você sabe meu filho, sexo é uma coisa somente para adultos” e continuei dizendo: “Sexo é aquilo que eu e a mamãe fazíamos quando vocês ainda não existiam... Poxa, bons tempos”. Pedro me olhou com uma cara alarmada, então eu parei de suspirar e voltei à explicação: “Quando um homem e uma mulher se gostam muito eles se casam, e depois de toda aquela palhaçada na igreja vem a noite de núpcias. Aí o marido pega a esposa no colo e a leva para a cama, e depois de muito amor e carinho eles se deitam, FIM”! Aliviado, pensei que ele havia entendido, mas às vezes eu esqueço que tenho um garotinho e não um super-gênio dentro de casa. “Mas pai, (disse ele) quando eu vo pra casa do Vitor eu brinco de barraquinha com ele e a gente se deita juntos também, a gente ta casado”? “Não”! Eu disse, e instantaneamente parei pra pensar a forma que eu teria que usar para que ele compreendesse sem me fazer mais perguntas. Assim, continuei explicando: “Filho, hoje em dia muitos homens se gostam e mulheres também, o mundo está cada vez mais diversificado, só que você vai se casar e vai ter filhos com uma bela esposa, que nem naquelas historinhas que a mamãe conta antes de dormir, sabe? Então, para estar casado, você tem que beijar, abraçar, fazer carinho, pagar as contas”... “E fazer sexo papai”? “Sim meu filho, e fazer sexo! De preferência muito, mas sempre com a mesma pessoa” eu complementei. Entretanto, para meu alívio Pedro estava achando toda aquela conversa um pouco assustadora como alguém como Pedro poderia pensar em fazer sempre a mesma coisa com a mesma pessoa? Ele tinha muitos amiguinhos e gostava de brincar com todos eles, não entenderia nunca o que eu estava querendo dizer sobre fidelidade. Foi aí que eu resolvi dar um fim de vez nessa conversa e falar que sexo não era realmente um bom assunto para ele, não agora. Mandei ele parar de fazer perguntas e saí do quarto sem mais delongas.
Hoje, penso mais sobre o assunto. Não sexo em si, mas o envolvimento que ele traz. Porque, bem, sexo é realmente uma coisa boa... Boa não, MUITO BOA, mas é extremamente superficial. Tanto no sentido figurado como literalmente, porque depende e bastante da superfície de contato, se é que me entende. Mas podemos viver sem ele. Porque para se reproduzir hoje em diz, basta que você tenha dinheiro para fazer uma inseminação artificial (algo extremamente útil para lésbicas pelo que li). Mas o amor sim, este é essencial e, como diria Vinícius de Moraes, ele não é imortal, mas o importante é que ele seja vivido enquanto durar.
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